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terça-feira, 17 de julho de 2012

Prometheus (Prometheus, 2012)



O retorno de Ridley Scott à série de terror/ficção científica Alien está com um fator a mais, um aditivo que aprofunda a visão acerca da existência do próprio homem e seus propósitos neste universo. Prometheus nos convida a retornar às vastidões cósmicas para que acompanhemos uma equipe composta por cientistas, paleontólogos e militares em uma missão que, inicialmente, nem mesmo eles sabem ao certo do que se trata.
Abordando temas como religião versus ciência, homem versus natureza, Ridley Scott nos faz seguir por corredores escuros e ambientes alienígenas desolados, em uma fotografia de tirar o fôlego. É um filme de ficção com sustos e monstros, mas também nos leva ao arrepio e, porque não, lágrimas, pela beleza das imagens e da arrepiante e épica trilha sonora, composta pelo experiente Marc Streitenfeld, compositor responsável pelas também belíssimas trilhas de A Perseguição e Robin Hood (2010, também de Scott). Assim, Prometheus é um filme que, no cinema desperta sensações que em casa o expectador não terá, tal como foi seu antecessor, Alien, que tive o prazer de assistir, em um relançamento, na tela gigante.
E como é recorrente na maior parte da filmografia de Scott, temos o papel feminino, representado muito à contento pela cientista Elizabeth Shaw (Noomi Rapace), mostrando que fraqueza é apenas um denominador imputado culturalmente e injustamente às mulheres, exibindo, quando exigido, coragem e força muito além do que se espera. Em contrapartida, Charlize Theron soa um tanto quanto seca e desprovida de sentimentos, sejam eles de fúria ou de medo, chegando a ser questionada por certo personagem da trama se ela é realmente humana. Acredito ser uma limitação do próprio roteiro imposto ao personagem. E temos David, o Andróide programado para ser como os humanos, agindo de modo humano para causar a aceitação e empatia deles, mas demonstrando claramente sua insatisfação e frustração em não ser realmente um deles. E Michael Fassbender faz isso muito bem, demonstrando seus sentimentos, na maioria das vezes, em seus olhares e nos tons de voz.

Com um desfecho de certa forma inconcluso, que nos faz acreditar que uma continuação está a caminho (Ridley Scott já manifestou interesse em filmá-la e, acredito que, com o sucesso de Prometheus nas bilheterias, tal fato realmente não tardará em acontecer), Prometheus ainda assim é um dos grandes filmes de 2012, mesmo para quem nunca deu uma visitada em nenhum dos filmes anteriores da franquia. Na verdade, os filmes da série Alien passarão a ser obrigatórios para quem gostou ao menos um pouco de Prometheus.
E embora a proposta final do filme seja tratar de assuntos que, em tese, a ciência prefira deixar de lado, assuntos que abordam a existência ou não de um Deus criador, a conclusão estabelecida, de certa forma, responde a contento. E a resposta é basicamente outra pergunta: em quê você prefere acreditar?

domingo, 15 de julho de 2012

Histórias Cruzadas (The Help, 2011)



Não existe algo pior no meio cinematográfico do que ser compelido a emoções de forma desonesta e artificial. É como tomar um susto apenas pelo fato de algo berrar nas caixas de som em uma cena, em tese, assustadora de um filme de terror... ou, como no caso de Histórias Cruzadas, se comover com o sofrimento dos personagens que já provaram mostraram mais do que deveriam que são pessoas calejadas pela vida.
Na verdade, Histórias Cruzadas parece ser daqueles filmes que passam a maior parte de sua exibição se esforçando nisso: fazer com que os personagens negros sejam os sofredores e que derramemos litros de lágrimas por seus dramas pessoais. E apenas isso. Não há a preocupação em se criar uma empatia com os personagens que desfilam na tela. Apenas o drama pelo drama.
E que drama! Temos a velhinha que trabalha há 30 anos na mesma casa e é escorraçada e expulsa apenas por ter recebido a filha que não via há muito tempo (own!); temos a insensibilidade gritante dos patrões brancos quando uma mãe negra revela a eles suas necessidades financeiras em fazer com que seus filhos gêmeos permaneçam estudando – ou, caso contrário, ter que escolher dentre um deles para tirar da escola (own!); temos uma criança branca que não recebe atenção da mãe e acaba pedindo para a que a babá negra seja sua mãe (own!), assim como diversas outras passagens. O filme chega ao absurdo de quase apelar para a trilha sonora e para a câmera lenta ao exibir um personagem chorando e gritando “não vá!” durante uma cena de despedida.
Como atriz, Viola Davis mata a pau e foi merecida a indicação ao oscar de melhor atriz por este trabalho, entretanto, acho um exagero sequer este filme ter estado cotado pela Academia como um dos melhores do ano.

Não quero subjugar o drama pessoal das pessoas que viveram naquela época. Pelo contrário, acredito que o drama vivido pelos negros nestes períodos de segregação foi infinitamente pior do que o que foi mostrados no filme, ou em qualquer outro, entretanto, a falta de sutileza com que foi exibido só denota um excesso de artificialidade e falta de tato do diretor/roteirista.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Os Vingadores (The Avengers, 2012)




O que peca em filmes como O Homem de Ferro, Thor e Capitão América, talvez seja a falta de aprofundamento moral, psicológico intelectual no tratamento da trama em si. Não que toda história necessariamente deva ter um cunho moral; muitas vezes, a inserção de tais elementos na narrativa acaba prejudicando ou comprometendo o andamento da obra, tornando-a pedante e piegas. Entretanto, filmes como Cavaleiro das Trevas, X-Men, Watchman e Hulk (de Ang Lee) são bastante promissores nesse quesito, não deixando que a história e a diversão sejam desvirtuadas em detrimento da moral a ser passada, trabalhando de forma profunda e visceral as características e antecedentes dos personagens. Isso faz com que entendamos melhor seus propósitos, soframos com seus dramas e, porque não, até mesmo compreendamos as motivações dos vilões (e simpatizemos com sua causa, como é o meu caso com o Magneto em X-Men e com Ozymandias, em Watchmen).

O que acontece com os últimos filmes da Marvel que fazem parte da franquia Os Vingadores é que eles acabam sendo filmes de ação/aventura por si só, o que faz com que a história rapidamente se perca em nossa memória semanas ou dias depois de assistirmos. É quase sempre a mesma coisa: alguns vilões inexpressivos com um plano de acabar com o mundo contra alguns heróis que resolvem salvar a todos nós sem que nem eles mesmos entendam ao certo o motivo de estarem fazendo isso. Além disso, os roteiristas são rasos na construção psicológica de seus personagens (excetuando-se aí O Homem de Ferro, onde Robert Downley Jr nos apresenta um memorável Tony Stark, mais por sua excelente atuação do que pelo roteiro em si).

Entretanto, em Os Vingadores, a fórmula "personagens rasos + história rasa" acaba funcionando de uma forma inacreditavelmente boa. O filme é tão divertido que pouco nos lixamos para a verossimilhança das tramas que estão sendo traçadas na tela. E se, por um lado, temos um plano em que o super vilão Loki quer se aproveitar de um tipo de energia emitida por uma espécie de cubo (pra que mesmo ele quer isso???), por outro temos um grupo de super-heróis, reunidos a toque de caixa, com egos não menores que suas habilidades, o que faz com que eles sejam totalmente responsáveis por toda a diversão do filme.

É delicioso ver, por exemplo, Tony Stark provocando Bruce Banner na expectativa de irritá-lo para despertar nele o monstro verde que o habita. Ou ver a Viúva Negra, em uma sessão de tortura na qual é vítima, tentando resolver pelo telefone assuntos cotidianos, como se tirasse de letra qualquer situação que ocorresse em sua vida. Ou mesmo o monstro Hulk, em seus acessos de raiva, pouco se importando em conter-se até mesmo com seus aliados.

E é justamente o Hulk que rouba as melhores partes do filme nos momentos em que ele aparece. A constituição de um Bruce Banner mais sociável, diferentemente do que ocorreu nos dois recentes filmes anteriores, onde ele era apresentado como um sujeito introspectivo, é bastante correta para o atual universo Os Vingadores, já que a química estabelecida pelos personagens de forma geral, exige mais dele nesse sentido.

E, para encerrar esta análise, eu não poderia deixar de comentar a cena da batalha nas ruas da cidade que, para mim, atingiu o primor das batalhas estabelecidas pelos desenhos da Liga da Justiça (que torço com todas as minhas forças para que a Warner resolva filmar utilizando a apresentação gradual dos personagens, como feito em Os Vingadores, com um filme independente para cada). A cena em questão é complexa, com diversas coisas acontecendo ao mesmo tempo, entretanto, é tão bem dirigida que soa como música clássica, com tudo funcionando perfeitamente para que, ao final, terminemos com aquele gostinho de que o filme poderia ser duas vezes mais longo que ainda sairíamos do cinema querendo que fosse maior.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Cavalo de Guerra (War Horse, 2011)

Gênero: Drama e Guerra
Duração: 146 min.
Origem: Estados Unidos e Índia
Direção:
 Steven Spielberg
Roteiro: Lee Hall e Richard Curtis
Ano:
 2011
Elenco: Benedict Cumberbatch, Tom Hiddleston, David Thewlis, Emily Watson, Toby Kebbell, Eddie Marsan, David Kross, Peter Mullan, Jeremy Irvine

Cavalo de Guerra conta a história da amizade de um jovem e um cavalo de fazenda que, devido à dificuldade financeira de seu dono, pai do jovem, acaba vendendo-o para um oficial para que fosse usado durante a Primeira Grande Guerra Mundial. A partir daí, passa a narrar a trajetória do animal passando pelas mãos de diversas pessoas enquanto o jovem tenta reencontrá-lo.

Com uma fotografia que nos remete aos filmes da época de ouro do cinema como ...E o Vento Levou e Cidadão Kane, Cavalo de Guerra é tecnicamente impecável. Entretanto, comete o mesmo erro que o filme Austrália cometeu: ser um filme que a todo momento parece mostrar que veio para ser grandioso. Filmes grandiosos simplesmente são, sem precisar esforçarem-se para isso. Um bom exemplo de filme grandioso no século XXI é Sangue Negro, de P.T. Anderson, onde a técnica aliada à história e às atuações nos proporciona um espetáculo para os olhos e para a mente.

Entretanto, Spielberg, dessa vez, não pareceu se incomodar com o cérebro de seus espectadores. Com diálogos expositivos e, de certa forma, mecânicos demais, os personagens parecem muitas vezes artificiais em seus atos. Talvez o caráter episódico da narrativa os força a isso, entretanto, não creio que essa seja uma justificativa para um diretor do naipe de Spielberg. Assim, a promessa que o oficial do exército faz ao jovem antes de levar o cavalo para a guerra, ou a reação do comprador do cavalo, ao final, em um leilão, ou mesmo a atitude dos moradores da aldeia ao pararem suas atividades para verem um cavalo e um jovem arando um campo soam extremamente forçadas e inverossímeis, falhando na identificação que o expectador poderia vir a criar com os personagens, comprometendo seriamente a carga dramática do filme.

Confesso que, por nunca ter tido uma experiência ruim no cinema com relação aos filmes de Steven Spielberg (não há sequer um filme vergonhosamente ruim em toda sua filmografia), fui assistir Cavalo de Guerra esperando muito. Além disso, o fundo histórico trata-se um de meus temas preferidos: a guerra. Sendo assim, Cavalo de Guerra me decepcionou um pouco por não ser tão memorável quanto o filme aparentou que seria.

Entretanto, Cavalo de Guerra possui cenas que, por si só  valem a ida ao cinema. Cenas geniais, que parecem ter sido trabalhadas para justificarem a realização do filme inteiro: um bom exemplo é a tomada da batalha, onde o cavalo corre pela trincheira enquanto vemos a guerra explodir ao fundo. É de tirar o fôlego. Outra cena memorável é uma tomada que mostra ao mesmo tempo que esconde a execução de certo personagem. E a cena final, com sua explosão das cores de um pôr do sol em regiões campestres, que soam exatamente como uma homenagem aos anteriormente referidos filmes da época de ouro do cinema, chega a ser tão plástica que funciona perfeitamente, cabendo inteiramente em seu propósito. Nesses pontos, Spielberg mostra sua competência. A trilha sonora de John Williams, como não poderia deixar de ser, também é bem interessante.

Assim, longe de ser um filme ruim, mas facilmente esquecível, Cavalo de Guerra é uma experiência apenas mediana de entretenimento de um diretor que poderia ter feito algo realmente grandioso com o material que tinha em mãos.   


sábado, 7 de janeiro de 2012

Medo da Verdade (Gone Baby Gone, 2007)

Lançamento: 2007 (EUA)
Direção: Ben Affleck
Atores: Casey Affleck, Michelle Monaghan, Ed Harris, Morgan Freeman, Amy Ryan.
Duração: 116 min
Gênero: Drama

Medo da verdade é um filme sobre as escolhas que fazemos e como somos obrigados a conviver com elas, sendo certas ou não. É, também, sobre como embasamos nossas escolhas ora na legalidade, ora na moralidade, pois nem tudo o que é ilegal é necessariamente imoral.

Na história, acompanhamos Patrick Kenzie e Angie Gennaro (respectivamente Affleck e Monaghan), um casal de detetives particulares especializados em localizarem pessoas que, por motivos geralmente financeiros (para dar o calote, leia-se), desaparecem, deixando para trás sua dívida e um cobrador. Os dois são procurados por uma avó desesperada que quer contratá-los para tentar encontrar sua neta, raptada há três dias. Como conhecem bastante a vizinhança, os dois aceitam o desafio e começam a descobrir mais e mais acerca dos fatos que envolvem o rapto.

A partir daí o filme nos apresenta uma série de reviravoltas, introduzindo até mesmo uma nova sub-história com sua conclusão (usada para ampliar a característica de alguns dos personagens) até encerrar-se com um final reflexivo, onde temos um tempo para analisar a situação e pensar acerca das escolhas dos personagens. E, como o texto narrado na abertura do filme, onde o protagonista relata acreditar que o ´´que não escolhemos é o que faz com que sejamos quem somos´´, nossas escolhas também podem ser responsáveis por fazer as pessoas serem o que elas se tornarão.

Com uma fotografia espetacular, que usa e abusa das tomadas aéreas para mostrar bem a cidade onde os fatos se passam, o filme é baseado na obra de Dennis Lehane, autor de Sobre Meninos e Lobos e conta ainda com as boas atuações de Ed Harris e Morgan Freeman. Como direção, temos o competente Ben Affleck, que mostra mais uma vez que trabalha melhor atrás das câmeras (escrevendo e/ou dirigindo) do que em frente a elas.

Enfim, Medo da Verdade é um filme que passou despercebido a despeito de seu time de atores, entretanto, vale a pena dar uma conferida neste excelente trabalho realizado.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Drive (Drive, 2011)




Dirigido por Nicolas Winding Refn.

Roteiro: Hossein Amini, baseado no livro de James Sallis

Elenco: Ryan Gosling, Albert Brooks, Carey Mulligan, Ron Perlman, Oscar Isaac, Bryan Cranston, Christina Hendricks, Kaden Leos.


Acredito que um ator ou um diretor não fazem o filme ser bom ou ruim. Ver impresso no cartaz o nome de Fulano de Tal, em letras garrafais não é garantia de qualidade, embora possa dar-nos uma noção (principalmente no que se diz do quesito Direção) do que veremos na tela. Os responsáveis pela qualidade do filme são uma junção de direção, roteiro e atuação, dentre outras coisas. Alguns filmes são considerados bons simplesmente pelo fato de entreterem, jogando por terra os objetos citados anteriormente. São os chamados <filmes pipoca>, filmes que atraem grandes multidões que, sendo ou não sendo familiarizadas com a linguagem cinematográfica, acabam gostando do resultado final visto na tela.

Não é o caso de Drive. Extremamente intimista, o filme não foi feito para atrair um grande público ou, como aparentemente alguns acreditam, um público que espera ver na tela mais uma versão de Carga Explosiva ou Velozes e Furiosos. Em sua trama, Drive nos apresenta como personagem principal um homem sem nome e sem passado, cujo emprego de dublês de filmes lhe garante um outro emprego ainda mais perigoso: dirigir para bandidos em fuga assim que eles cometem seus furtos ou roubos.

Com uma introdução de tirar o fôlego, o diretor Nicolas Winding Refn dá uma aula de cinema ao mostrar que as cenas de tensão criadas pelas fugas nos filmes de ação nem sempre se dão pelas perseguições desenfreadas e barulhentas, mas também pelos momentos de silêncio e espera.

Ryan Gosling, mostrando-se mais uma vez um excelente ator (depois do excelente Namorados Para Sempre), apresenta o personagem principal como um homem calado, com um semblante calmo, quase bobo, entretanto, extremamente violento quando provocado, em momento algum julgando se é certo ou errado o que faz. Apenas, em suas palavras, fazendo o que precisa ser feito.

Também pela segunda vez neste ano, Carey Mulligan (depois do ótimo Não Me Abandone Jamais) nos apresenta a personagem Irene, uma mulher triste, com uma vida difícil que, em diversos momentos nos mostra, apenas com seu olhar, a aceitação de que estar apaixonada ou não por seu marido, ter ou não uma nova vida com outra pessoa, permanecer ou abandonar tudo para trás não vai mudar em nada seu destino. Que o que resta é aceitação de sua imutável condição.

E como não comentar também a atuação de Ron Perlman, que nos traz mais uma vez um vilão caricatural, divertido, como em muitos de seus trabalhos.

Em minha opinião, um dos melhores trabalhos de 2011, Drive é um filme triste e violento, com uma fotografia e trilha sonora dissonantes, que nos remetem aos alegres anos 70, embora o que vemos na tela seja um retrato cruel e sombrio do ser humano, mostrando ao mesmo tempo sua humanidade e sua inumanidade. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Happy Feet: O Pinguim (2006) / Happy Feet 2: O Pinguim (2011)



Ficha técnica dos dois filmes:

Happy Feet: O Pinguim (Happy Feet, 2006)
País: Austrália / Estados Unidos
Direção: George Miller.
Roteiro: Warren Coleman, John Collee, George Miller e Judy Morris.
Distribuidora: Warner Bros.
Elenco: Vozes na versão original de: Elijah Wood, Brittany Murphy, Hugh Jackman, Nicole Kidman, Hugo Weaving, Robin Williams,

Happy Feet 2: O Pinguim (Happy Feet Two, 2011)
País: Austrália
Diretor e produtor: George Miller
Roteiro: George Miller, Warren Coleman, Gary Eck, Paul Livingston
Distribuidora: Warner Bros.
Elenco: Vozes na versão original de: Elijah Wood, Robin Williams, Hank Azaria, Pink, Brad Pitt, Matt Damon, Sofía Vergara, Common, Hugo Weaving, Magda Szubanski


Quando Happy Feet estreou nos cinemas, em 2006, confesso que fui arrebatado do cinema para um mundo alegre, cheio de música, mas ao mesmo tempo gelado, deserto e sombrio.

Apresentado para o público na mesma época do excelente e inovador documentário/filme A Marcha dos Pinguins, Happy Feet conta a história de Mano, um pingüim que vai de encontro com os outros de sua espécie por ser o único do bando que não tem o dom de cantar, demonstrando sua habilidade no ato de sapatear (explicando o título do filme: Happy Feet, pés felizes).

Como acontece em nosso mundo, Mano acaba sofrendo preconceito e exclusão social pelo fato de sua diferente característica, já que o bando tem na cantoria um papel importante para o acasalamento e perpetuação da espécie.

Seguindo a forma utilizada pelos antigos clássicos dos estúdios Disney em narrar parte das suas tramas como belíssimas sequências musicais, Happy Feet se demonstra eficiente nesse sentido já que a música é primordial para empurrar a narrativa, estabelecendo de forma inteligente uma discussão velada a respeito de nossa tendência a sempre discriminar o diferente. Entretanto, diferentemente da grande maioria dos longa metragens produzidos pela Disney, Happy Feet, a partir do terceiro ato, adquire um tom sombrio e claustrofóbico, situação que posso considerar, de certa forma, inadequada para as criancinhas que querem assistir desenhos com tramas mais leves e felizes. É nessa parte que a animação cede parte de seu espaço a personagens humanos, de carne e osso, aproveitando também para estabelecer uma discussão ecológica acerca nos malefícios na atividade humana nos rumos do planeta. Enfim, um filme com um quê a mais do que o simples fato de contar uma estória.

Entretanto, em Happy Feet 2, sua sequência de 2011, o diretor George Miller não conseguiu sair do mediano, apresentando-nos um filme facilmente esquecível, apesar de demonstrar claro o esforço em criar uma obra bem feita.

Apesar de a canção Bridge of Light, interpretada pela cantora Pitty (que substituiu Brithany Murphy devido à sua prematura morte em 2010) ser magnificamente apresentada (tanto vocalmente quanto visualmente), as demais músicas aparentam não ser tão importantes para a narrativa, servindo apenas para seguir a lógica musical do filme anterior.

Além disso, aqui, Mano é apresentado exatamente como a antítese da figura que ele era no filme de 2006, mostrando-se um sujeito pedante que serve apenas para barrar todas as atitudes e decisões tomadas por seu filho.

Os novos personagens aqui apresentados também falham no sentido de tomarem atitudes que apenas parecem servir para prolongar a narrativa e criar tensão, como a parte em que Brian, um enorme elefante marinho promete algo para, pouco depois, desfazer a promessa, mudando de uma hora pra outra sua personalidade, mostrando-se alguém sem caráter, até ser convencido pela cantoria do pequeno Erik, em uma das passagens mais constrangedoras e irritantes do filme. Ou a aparição de um certo pingüim voador, Sven, que em certo ponto, demonstra não ter utilidade alguma para a narrativa, quase sendo descartado por esta. Ou mesmo Will e Bill, dois pequenos crustáceos que, além de não serem engraçados (aparentemente algum dos roteiristas os acharam extremamente espirituosos), poderiam ser excluídos da história sem que fizessem nenhuma falta.

Em resumo, Happy Feet 2, por sua característica episódica e desisnteressante, além de repetitiva (há apenas um único desafio a ser resolvido em todo o filme: libertar os pingüins de um obstáculo natural formado devido ao movimento das gigantescas placas de gelo), acaba se tornando um filme facilmente esquecível, muito aquém do primeiro. Por ter esperado um intervalo de cinco anos de distância do primeiro, Happy Feet 2 poderia ter sido realizado de forma mais cuidadosa.




quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Melancolia (Melancholia, 2011)


Dirigido e escrito por Lars von Trier. 
Com: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling, John Hurt, Alexander Skarsgård, Stellan Skarsgård, Brady Corbet, Udo Kier, Jesper Christensen.

Assistir a um filme de Lars Von Trier geralmente não é uma coisa fácil. O diretor consegue despertar em cada um de seus trabalhos aquela sensação de ame ou odeie, sendo praticamente impossível que consigamos permanecer indiferentes ao término de suas películas. Aconteceu comigo no fim da sessão de O Anticristo, de Manderlay e de Dogville, sendo que o primeiro eu achei abominável (embora incrível em seu caráter narrativo) e os dois outros eu abracei como trabalhos espetaculares. Dançando no Escuro ainda não tive a oportunidade de assistir, mas tive referências de que se trata de um daqueles filmes devastadores, capazes de nos despertar algum estado de tristeza e angústia.

Seu novo trabalho, Melancolia, não é diferente. O filme é dividido em duas partes, cuja primeira nos apresenta a peculiar Justine (Kirsten Dunst), em sua festa de casamento e todos os conflitos que afligem sua família durante a comemoração. Na segunda parte, o filme nos mostra a agonia da espera dos terráqueos acerca de uma catástrofe que dizimará toda a vida no planeta Terra: o encontro deste com um novo e imenso planeta chamado Melancolia, que está em rota de colisão com o nosso.

Com uma introdução de aproximadamente sete minutos onde apenas imagens em câmera lentíssima são apresentadas, sem qualquer diálogo, apenas a famosa canção clássica Tristão e Isolda tocando ao fundo, o filme já se mostra não ser para qualquer um. A partir daí, esqueça qualquer expectativa de que verá algo como cinema catástrofe, pois o foco do filme está justamente nos sentimentos e sensações humanas, tendo como foco principal o sentimento de melancolia vivido pela protagonista Justine.

Reflexivo, arrastado, lento, cheio de simbolismos e rico em detalhes (sejam eles visuais ou não), Melancolia é um filme pesado e que não foi feito para agradar o público que vai ao cinema em busca apenas de entretenimento. E é certo que aqueles que sofrem ou já sofreram com a melancolia ou a depressão se identificarão imediatamente com Justine, compreendendo suas aparentemente insanas decisões durante a trama e assimilando melhor sua gradativa aceitação da paz interior que a inunda à medida em que o fim do mundo se aproxima, caminho seguido de forma diametralmente oposta pelos demais personagens que a acompanham até o final e cuja aceitação para eles aparenta ser mais difícil.

Atuando de forma esplêndida como sempre, Kirsten Dunst nos traz de maneira totalmente convincente toda a amargura de sua personagem. E, no final, entendemos e nos solidarizamos com sua compreensão, bem antes de todos, do caráter do ser humano e da razão vazia de nossa passagem por aqui, fator que a tornava melancólica quando tudo estava normal e a deixou mais serena quando a existência humana estava realmente perto de se acabar. 

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Contra o Tempo (Source Code, 2011)

Elenco: Jake Gyllenhaal, Michelle Monaghan, Vera Farmiga, Jeffrey Wright, Russell Peters, James A. Woods, Michael Arden.

Direção: Duncan Jones
Gênero: Ficção Científica
Duração: 93 min.
Distribuidora: Imagem Filmes

Contra o tempo é daqueles filmes que nos deixam completamente ligados, demonstrando eficiência da direção, agilidade e inteligência do roteiro. Com um enredo que nos remete à Déjà Vu, de Tony Scott, a trama nos apresenta Colter Stevens, um militar que acorda no corpo de um homem desconhecido dentro de um trem que contém uma bomba e que está seguindo em direção à cidade de Chicago. Descobre, então, que faz parte de um programa experimental do Governo chamado Source Code, que permite passar pela vida de outra pessoa em seus últimos oito minutos de vida. A partir daí, o capitão tem pouco tempo para descobrir a identidade do terrorista e salvar a cidade de outros ataques.

Jake Gyllenhaal atua de forma convincente na pele do capitão Stevens, demonstrando mais uma vez sua competência ao se apegar aos pequenos detalhes para compor seu personagem (reparem, por exemplo, em sua feição facial na primeira cena em que ele aparece, ao acordar no corpo de um desconhecido). Vera Farmiga também não fica atrás ao interpretar Colleen Goodwin, uma capitã que é o contato com Stevens para com o mundo exterior, servindo também como ponte entre o expectador e a situação pelo qual aos poucos somos apresentados (comentar mais revelaria partes importantes da trama).

Duncan Jones, um diretor novato no mundo dos longa metragens, já demonstra também sua competência ao dirigir seu primeiro longa depois do excelente, claustrofóbico e sombrio Lunar. A interessante forma de montar a história a cada oito minutos, permitindo que conheçamos um pouco mais dos personagens em tela antes que tudo se reinicie é algo que, apesar de não ser inovador no cinema, serviu como um importante condão narrativo para que gere uma certa tensão, colocando-nos par a par com os personagens: ora, se eles não sabem o que está acontecendo, nós também não. Assim, aos poucos e juntamente com o capitão Stevens podemos entender um pouco mais acerca daquela missão e nos surpreendermos com as graduais revelações que o roteiro inteligentemente nos esconde.

Assim, com uma direção e um roteiro competentes e atuações convincentes, Contra o Tempo, acaba se tornando surpreendente no sentido de ser um filme cujo estilo não conseguimos definir, podendo ser considerado uma ficção científica, um romance de aventura ou até mesmo um filme de ação, agradando qualquer público que goste de ao menos um desses estilos. Geralmente, tal caráter misto é tido como ponto negativo, pois aponta um roteiro fraco e insegurança na direção. Entretanto, Duncan Jones acertou em cheio ao nos apresentar um final prolongado, revelando as intenções dos criadores do programa ao qual o capitão Stevens foi sujeito, assim como uma saída, de certa forma, triste e feliz para o destino do personagem.

Em grupos de cinéfilos que participo, sejam eles reais ou virtuais, existe muita gente dizendo que o roteiro é cheio de buracos e falhas, e que o final prolongado é uma tentativa desesperada de encobrir isso. Acredito que tal posicionamento foi por simples falta de entendimento a respeito de como funciona a teoria dos Universos Paralelos. Não posso falar mais porque seria revelar demais a respeito de Contra o Tempo. Apenas insisto que assistam e tirem suas próprias conclusões.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Watchmen - O Filme (Watchmen, 2009)


Direção: Zachary Edward Snyder
Roteiro: Alex TSE e David Bryan Hayter

Elenco: Jackie Earle Haley, Billy Crudup, Patrick Wilson, Malin Akerman, Matthew Goode, Jeffrey Dean Morgan, Carla Gugino, Stephen McHattie, Laura Mennell, Rob LaBelle, Robert Wisden.

Da minha lista de filmes de super heróis que mais gostei, Watchmen certamente está no primeiro lugar, ultrapassando até mesmo o excelente X-Men de Bryan Singer. O que me faz admirar tais filmes é o fato de que há sempre uma contextualização humana por trás dos motivos dos personagens; no caso de X-Men, a discriminação e o preconceito; em Watchmen, o medo da morte. Não a morte em si, mas o devanescer do ser-humano diante da juventude das gerações presentes, que acabam excluindo de forma naturalmente cruel as gerações passadas. Além disso, Watchmen também aborda a imagem do herói com seu caráter falho e humano, mostrando-o com todas as suas perversões e fraquezas, não como a imagem cristalizada do heróis que geralmente temos.

Em Watchmen, a história se passa em um mundo no qual os EUA venceram a Guerra do Vietnã e Richard Nixon manteve-se presidente. Nesse cenário, os super-heróis, em um passado próximo, fizeram parte do dia-a-dia da sociedade americana através dos Vigilantes, um grupo homens e mulheres fantasiados que combatia o crime. Entretanto, com a Guerra Fria e o medo de uma possível catástrofe nuclear entre, os antigos Vigilantes começam a ser mortos, o que os leva a novamente se unirem para descobrir a verdade sobre esses homicídios.

O filme passa, então, a beneficiar-se de sua estrutura narrativa e insere em suas cenas diversas imagens que chegam a tirar o fôlego, usando de forma eficiente o clima noir da trama, além de apresentar uma trilha sonora que por si só já vale o filme.

Zack Snyder, que também dirigiu filmes gráficos como 300 e Sucker Punch - Mundo Surreal, dá a Watchman um apelo visual forte, carregando a película com cenas de encher os olhos, o que nos dá a impressão de que cada take foi cuidadosamente desenhado e pintado à mão. De fato, em diversos momentos temos a vontade de pausar o filme e fazer um pôster com a cena que está aparecendo na tela. No mínimo, Watchman é um colírio para os olhos dos cinéfilos e fãs de quadrinhos.

Contando com personagens tridimensionalmente humanizados em seu contexto narrativo, talvez o único deslize desta obra seja, por certas vezes, esquecer que eles não são heróis com super poderes, o que faz com que estranhemos algumas cenas onde vemos pessoas darem saltos gigantescos, reagirem de maneira ultra-veloz ou mesmo contorcerem-se de forma não-humana enquanto lutam contra seus adversários. E é justamente o fato de enxergá-los como pessoas é que nos faz solidarizarmos e compreendermos atitudes como a de diversos personagens da trama, citando como exemplo o controverso Comediante e meu favorito, Rorschach.

Com uma trilha sonora que, por si só já valeria o preço do ingresso, o filme também é recheado de diálogos memoráveis e inteligentes, frases que valem a pena pausar o vídeo para refletir sobre elas por alguns segundos.

Assim, concluo que Watchman é mais do que um filme para ver. É um filme para ter e ver sempre, estando, em minha opinião, dentre uma das melhores obras cinematográficas de 2009.

A Coisa (The Thing, 2011)


País de Origem: EUA / Canadá

Gênero: Terror / Suspense

Estúdio/Distrib.: Universal Pictures
Direção: Matthijs van Heijningen Jr.
Elenco: Mary Elizabeth Winstead, Eric Christian Olsen, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Joel Edgerton, Ulrich Thomsen, Jonathan Walker, Kim Bubbs, Stig Henrik Hoff, Trond Espen Seim.


Ao ver, por acaso, o cartaz de The Thing em um site de cinema americano, há uns 3 meses atras, lembrei-me do arrepio que eu sentia quando era criança só de pensar em O Enigma do Outro Mundo. Nada é claro para mim a respeito da história do referido filme, mas o monstro, disso eu me me recordo bem, era algo me me fazia borrar de medo. O fato de eu citar O Enigma do Outro Mundo nesta resenha se dá pelo fato de A Coisa ser uma espécie de prelúdio para aquele filme, tratando de explicar melhor os fatos que ocorreram antes da história que foi passada na película de 1983.

Em A Coisa, uma equipe de pesquisadores e cientistas descobrem, no ano de 1982, na Antártida, uma nave alienígena soterrada por milhares de anos sob o gelo. Perto dela, encontram uma criatura congelada, decidindo, assim, transportá-la para uma base próxima e estudá-la. Entretanto, as coisas começam a dar errado quando os cientistas descobrem que a criatura não está morta e que possui uma natureza muito diferente de qualquer coisa existente em nosso planeta.

Apesar de ter achado A Coisa um filme de terror/ficção mediano tendo em comparação os filmes da atualidade, seus problemas são evidentes e acabam contribuindo para que o sucesso de 1983 seja infinitamente mais bem recomendado por público e crítica (particularmente, recordo-me de quase nada do filme anterior, portanto não vou fazer comparações). O fato de a história se desenvolver tão rapidamente, logo de início, faz com que o filme perca grande parte de seu poder em gerar medo no público. O monstro aparece muito rápido e de forma bastante expositiva, revelando que o diretor Matthijs van Heijningen Jr, praticamente um estreante, revele de cara a sua imaturidade em dirigir filmes de terror. Aparentemente ele não compreendeu que o que não é mostrado assusta muito mais do que o que é mostrado.

E quanto ao que é mostrado, achei que cumpre bem o papel de assustar. O monstro é mesmo capaz de gerar medo e repulsa, apesar de eu acreditar que se o roteiro explicasse mais alguns detalhes a respeito da natureza biológica da coisa, o impacto seria melhor. Entretanto, tais sensações só são despertas quando deparamos com o caráter físico humano do monstro que, quando perde tais características, acaba caindo no lugar comum, sendo apenas mais um monstro de CGI como tantos outros.

No final das contas, acredito que A Coisa cumpre bem o seu papel e desperta nos espectadores do século XX a vontade de assistir o filme de 1983 e descobrir mais a respeito de como as coisas se desenrolaram depois do que foi visto no filme de 2011.

Em tempo:
O site Imdb cita The Thing (2011) com o mesmo título em português do filme de 1983, chamando-o de Enigma do Outro Mundo.

O Enigma de Outro mundo, de 1983, é um remake (refilmagem) de O Monstro do Ártico, de 1951.

sábado, 3 de dezembro de 2011

O Fabuloso Destino de Amelie Poulain (Le fabuleux destin d'Amélie Poulain, 2001)

Diretor: Jean Pierre Jeunet
Elenco: Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz, Jamez Debbouze, Isabelle Nanty, Dominique Pinon
Gênero: Comedia/Fantasia/Drama/Romance



Dez anos depois de nos brindar com Delicatessen (1991), uma divertida comédia francesa de humor negro que assisti ainda criança, Jean-Pierre Jeunet repete a dose, dessa vez com mais pureza em O Fabuloso Destino de Amelie Poulain.


A jovem e inocente garçonete Amelie, encontra uma caixa escondida no banheiro de sua casa e, pensando que pertencesse a um antigo morador, decide procurá-lo . Vendo que o velho senhor fica emocionado e chora de alegria ao reaver o seu objeto, a moça fica impressionada e adquire uma nova visão do mundo, decidindo, assim, realizar pequenos gestos para ajudar as pessoas que a rodeiam, vendo nisto um novo sentido para sua existência.


Envolvido em uma atmosfera onírica que mescla cores fortes e tons sombrios, ângulos anômalos e sons ocasionalmente bizarros, O Fabuloso Destino de Amelie Poulain é um filme que tem como principal mérito mostrar como as coisas simples da vida são importantes, como elas nos transformam e montam nosso caráter a cada momento. 


Coisas como um simples telefonema, um agradecimento, um reconhecimento podem nos transformar para sempre, apesar de serem desvalorizados em sua imensa importância simplesmente por serem algo cotidiano. E algumas dessas coisas são tão imensas em seu significado que tornam-se medíocres quando citadas, cabendo a cada um de nós guardar para nós mesmos o seu valor. 


Nota-se bem isso na obra, por exemplo, quando, em certo momento, um personagem comenta: “A vida é engraçada! Para a criança, o tempo não passa, e de repente, temos 50 anos. E o que nos sobra da infância cabe em uma pequena caixa enferrujada.” 


Algo tão significativo como as experiências vividas por nós em nossa infância não deveria caber em uma pequena caixa. Entretanto, cabe. É o que nos mostra Amelie Poulain, ao descobrir que suas pequenas ações podem transformar a vida das pessoas à sua volta através de coisas simples que estão ao alcance de nossas mãos. E de repente ela dá olhos ao cego; esperanças para um velho que se vê em uma vida sem objetivo; traz o perdão a um antigo relacionamento que só traz mágoa, dentre tantas outras boas ações. 


E assim, ao terminar de assistir o filme que revelou ao mundo Audrei Tatou, ficamos com aquela sensação de leveza, e a certeza que o mundo poderia ser um lugar melhor pra se viver: depende apenas de nossas pequenas ações.

Reféns (Trespass, 2011)



Elenco: Nicolas Cage, Nicole Kidman, Cam Gigandet, Liana Liberato, Nico Tortorella, Jordana Spiro, Dash Mihok, Ben Mendelsohn, Zurab Matcharashvili.
Direção: Joel Schumacher
Gênero: Suspense
Distribuidora: Imagem Filmes
Orçamento: US$ 35 milhões.

Kyle (Nicolas Cage) e Sarah (Nicole Kidman) e a jovem Avery (Liana Liberato) vivem em uma elegante e segura casa com todos os confortos modernos. Tudo está bem até o momento em que a casa é invadida por criminosos e a família é feita refém. Agora todos os segredos da família deverão ser revelados na luta contra os invasores.



Quando vi, tardiamente, o nome de Joel Schumacher na direção de Reféns, fiquei meio decepcionado. No geral, Schumacher é um diretor de bons filmes e é, sem dúvida, um dos grandes nomes de Hollywood, o que gera dele certa expectativa. Entretanto, devemos lembrar que ele foi o responsável pelo vergonhoso Batman e Robin ou por outros apenas medianos como Town Creek (que tem uma excelente história que poderia ser muito melhor aproveitada) e Número 23. Tais filmes não excluem de forma alguma filmes excelentes como Oito Milímetros, Tempo de Matar, Por um Fio e Linha Mortal. Como eu disse, Schumacher é um diretor memorável, e como tantos, também suscetível a altos e baixos.


Entretanto, Reféns se mostra apenas mais um exemplar dos filmes medianos de Shumacher. Com uma trama boba e atuações simples, o elenco se vê perdido em suas personalidades convenientemente moldadas para servirem à história, quando o ideal seria a trama se adaptar ao caráter dos personagens, o que por si só já é uma fraqueza do roteiro.  Por ter Nicolas Cage e Nicole Kidman no elenco, acredito que os atores não puderam fazer muito no quesito atuação devido ao fato de terem seus personagens, de certa forma, engessados para se adaptarem às surpresas que o filme nos apresentam ao longo da projeção.


Em alguns momentos, eu duvidava de estar vendo uma superprodução em uma sala de cinema, em pleno século XXI, pois o filme, por diversas vezes (devido às suas reviravoltas surpreendentes mas superficiais) me lembrava aquelas exibições que passavam há uns quinze anos atrás no Supercine. A partir do meio da projeção somos apresentados a diversas situações completamente novas, como uma sucessão de Deus ex-machina cinematográficos para salvar uma história que está fugindo do lugar comum.


Talvez se o roteiro se ativesse mais à sobrevivência das vítimas e não ao que havia por trás do crime cometido pelos invasores, a história seria mais interessante. Agora, o jeito é esperar pelo próximo grande suspense de Schumacher. E esperar para não me decepcionar novamente.



Gen Pés Descalços (Hadashi no Gen, 1983)


Desenho/Animação

Diretor: 

Mori Masaki

Roteirista: 

Keiji Nakazawa

Vozes de:

 Issei Miyazaki, Masaki Kôda and Seiko Nakano


Atenção: texto contém spoilers leves.

O filme conta a história de Gen, um garotinho que vive com sua família em Hiroshima e tem como melhor amigo seu irmão caçula. Narrada durante o término da Segunda Guerra Mundial, a história aborda, de forma realística e cruel, os horrores vividos por civis durante os ataques a bombas que afetaram, principalmente, as cidades de Hiroshima e Nagasaki em 1945.

Com a visão de uma criança de 6 anos, o filme inicia-se de modo infantil e inocente e vai ganhando uma sufocante carga dramática com o decorrer de sua trajetória. Não é um filme psicologicamente fácil de ser assistido. Em certos momentos, a  forma com que as imagens e os destinos dos personagens são jogados na tela é tão cruel, fria e expositiva que temos que dar uma respirada e lembrar que estamos defronte a uma obra cinematográfica. Ou ainda, de uma animação, o que é pior. Ao mesmo tempo, vale lembrar que Gen Pés Descalços é uma obra autobiográfica do autor de mangás e escritor Keiji Nakazawa e, tudo o que vemos são os efeitos de uma atrocidade cometida contra civis para que os EUA demonstrassem superioridade sobre o restante do mundo.

 Citando algumas passagens memoráveis, a cena da explosão é tão fantástica e realista que chega a nos remeter filmes que vieram anos depois e que até então chegaram a me impressionar pela inovação da técnica aplicada, como o momento da explosão em A Senha - Swordfish. O silêncio que antecede a sequência da explosão em Gen Pés Descalços chega a ser tão impressionante que incomoda, principalmente por sabermos o quão terrível é o que está por vir e tudo o que acontecerá em seguida. Isso se conhecermos um pouco da História da Segunda Guerra Mundial.

O que me faz comentar também outra coisa importante nessa impressionante obra de animação: a carga cultural e de aprendizagem que adquirimos enquanto assistimos o pequeno Gen viver seu drama na tela. Os efeitos da radiação, da fome, da devastação, o contexto histórico da época, nada passa desapercebido para quem está assistindo. É praticamente uma aula de história.

E, ao final de tudo, terminamos com a sensação de que, por mais que a natureza humana seja vil e cruel a ponto de infligir tanto sofrimento a tantas pessoas, o pequeno Gen nos mostra que essa mesma natureza pode ser diferente, pode resistir a intempéries e recomeçar de forma totalmente melhor.

IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0085218/
 
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